Mosaico de História e Cultura Afro-Brasileira

Construído para retratar nossas vivências com a disciplina História e Cultura Afro-Brasileira.
UNEB 3° semestre 2008.1.

"Não existe um mestre absoluto,
sempre somos ao mesmo tempo aluno e mestre.
Porque o mestre ensina aos outros,
mas também aprende dos outros."

Chefe de aldeia Dogom


"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo.
E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social
se implante antes da caridade."

Paulo Freire

domingo, 5 de julho de 2009

Uma Herança Africana: A Capoeira.

Coluna destinada a nossa construção sobre uma herança africana: A Capoeira!
Justificativa

A capoeira é um tipo de movimentação corporal artística de jogo, luta, dança que expressa parte da cultura afro-brasileira de nosso povo e da qual as nossas crianças devem se apropriar sem necessitar recorrer a importação de esportes, lutas e artes de outros países, como é o caso do Kung Fu, Judô, Moai tai, Voleibol, Basquetebol, entre outros.

Existe uma grande necessidade de se ampliar o acesso ao esporte, as artes e as danças e pela forma através da qual se apresenta, a capoeira, pode ser praticada em qualquer lugar, com poucos recursos necessitando apenas de alguns instrumentos de percussão e um espaço para o desenvolvimento das atividades.
A capoeira é uma atividade lúdica, expressiva, integrada, que exige princípios morais e éticos do capoeirista e portanto é uma atividade educativa e de fato a arte marcial brasileira, a qual os escravizados organizaram os primeiros movimentos, os seus filhos jogaram e os seus netos e descendentes lutaram e até hoje lutam para preservar.
A realidade dual do município de Salvador demonstra que capoeira é uma das melhores possibilidades para um trabalho multidisciplinar, bem elaborado e com baixo custo a ser desenvolvido em quase todos os locais. Por que motivos dizemos quase todos? Porque a única exigência formal da capoeira é que se tenha uma roda com três metros de diâmetro, um berimbau, um pandeiro e vozes para que o grupo possa produzir boa música que é um dos alicerces da capoeiragem.
Falando de alicerces... a capoeira possui vários fortes alicerces em sua prática. Pra falar daquilo que é importante para as crianças, falaremos do companheirismo, do respeito ao mestre, do respeito ao momento, do respeito a ancestralidade, do aprendizado oral com as cantigas, com as histórias...

Outro ponto a ser citado é a implementação da lei 11.645/08 que diz:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.". Portanto, todas estas e muitas mais coisas justificam que o nosso tema seja a capoeira.

Objetivos


Promover a convivência, no âmbito acadêmico, com a cultura da capoeiragem;
A partir das vivências acadêmicas com o jogo introduzir nas escolas, principalmente públicas, a implementação dele como uma vertente legítima do estudo da história afro-brasileira;
Ensinar a importância da ancestralidade para elevar a auto-estima e a convivência com a verdadeira história afro-brasileira;
Incentivar a socialização dos estudantes a partir das vivências capoeiristas;
Irrigar o terreno do subjetivo com idéias, filosofias e éticas da capoeira.

A Capoeira

Afinal de contas o que é a capoeira?

Capoeira é luta, dança, esporte, cultura, briga, arte, defesa pessoal, folclore e muito mais. É música, poesia, festa, brincadeira, diversão e acima de tudo forma de manisfestação e expressão do povo, do oprimido e do homem em busca de sobrevivência e dignidade.
Para entender-mos a capoeira é necessário recoorer a história e imaginarmos nossos antepassados em luta pela sobrevivência. Eram os africanos retirados de suas terras, colocados em porões de navios e levados para novas terras. Ali sofriam diferentes formas de maltratos e passavam a morar em senzalas, que após um intenso dia de trabalho, alí eram recolhidos. Esse era o espaço de socialização dos nossos ancestrais que de maneira nenhuma aceitavam sua nova condição de oprimidos. Os escravizados começaram a se organizar formando quilombos e se organizando, político e socialmente. Nesses quilombos os fugitivos se econdem, se protegem e se fortalecem revivendo com fé todas as suas tradições e manifestações culturais. É nesse contexto que se desenvolve a capoeira. Os negros nunca aceitariam voltar dos quilombos as senzalas e movidos pelo instinto natural de preservação da vida descobrem em seus corpos suas armas, arma que mais tarde será batizada com nome de Capoeira de Angola.
Tendo como fonte inspiradora a natureza a capoeira surge no momento em que diversos movimentos são copiados das brigas dos animais. Um exemplo muito claro é a chapa, que lembra um coice ou o pulo do gato que somente o nome o explica ou o salto do macaco...
Dizem que os capitães do amto comentavam que os negros utilizavam "um estranho jogo de corpo desferindo coices e marradas, como se fossem verdadeiros animais indomáveis" nos momentos de combate. Diziam para que os soldados tivessem "cuidado com esse estranho jogo de corpo, vindos de repente do interior das capoeiras". O autor Almir das Areias assim, deduz que o nome do mato serviu portanto para denominar a luta. A palavra capoeira é originada do Tupi e refere-se as áreas de mata rasteira: Capo= mato, Eira= cortado.


A Música na Capoeira


A Capoeira é a única arte marcial a ser praticada com musica, o ritmo diz aos capoeiristas como deve ser o jogo.
O início da música do jogo (ladainha) geralmente traz uma lição, um ensinamento que um mestre deseja passar ao jogador que está na roda ou aou grupo presente no espeço.
A continuidade da ladainha, nomeada corrido, é um coro de repetiçoes e retratam geralmente uma parte do cotidiano dos capoeiristas, uma reclamação social ou um chamado para o jogo, entretanto o canto pode variar ao gosto do cantador.
Existem vários toques de berimbau, e cada toque pede aos capoeiristas um jogo diferente. Uma roda de capoeira com um bom ritmo faz com que os jogadores muitas vezes ultrapassem seus limites, já que a musica de Capoeira contagia mesmo quem esta apenas de passagem, assistindo a roda.






O Jogo






"Discípulos do Mestre Jogo de Dentro, e integrantes do Grupo Semente do Jogo de Angola."



"Formatura de Capoeira - Grupo de Capoeira Porto da Barra"


A vingança do berimbau

Miguezim de Princesa


Superado pelo tempo,
Ensinando muito mal,
Fabricando mil diplomas
Para entupir hospital,
O doutor da faculdade
Botou, com toda maldade,
A culpa no berimbau.

II

Disse o doutor Natalino
Que o baiano é um mocó,
Sem coragem e inteligência,
Preguiçoso de dar dó,
Só liga pra carnaval
E só toca berimbau
Porque tem uma corda só.

III

O sujeito ignorante
Não conhece o berimbau,
Que atravessou o mundo
Com toda a força ancestral.
Na fronteira da emoção,
Traz da África a percussão
Da diáspora cultural.

IV

Nem Baden Powel resistiu
À percussão milenar,
Uma corda a encantar seis
Na tristeza camará
De Salvador da Bahia.
Quem toca e canta poesia
Na dança sabe lutar.

V

O doutor, se estudou,
Na certa não aprendeu nada:
Diz que o som do Olodum
Não passa de uma zoada
E a cultura baiana
É uma penca de bananas,
Primitiva e atrasada.

VI

Jimmy Cliffi, Michael Jackson,
Paul Simon e o escambau
Se renderam ao Olodum
Com seu toque genial,
Que nasceu no Pelourinho
E hoje abre caminho
No cenário mundial.

VII

O baiano é primitivo?
Veja só o resultado:
Ruy foi o Águia de Haia;
Castro Alves, verso-alado
De poeta condoreiro,
E gente do mundo inteiro
Se curvou a Jorge Amado.

VIII

Bethânea, Caetano e Gil,
Armandinho, Dodô e Osmar,
Gal Costa, Morais Moreira,
Batatinha a encantar
João Gilberto, Bossa Nova
Novos Baianos são prova
Da grandeza do lugar.

IX

Glauber, no Cinema Novo;
Gregório, velha poesia;
Gordurinha, no rojão;
Milton, na Geografia;
Anísio, na Educação;
Dias Gomes, na encenação;
João Ubaldo e Adonias.

X

Menestrel da cantoria
Temos o mestre Elomar,
Xangai, Wilson Aragão,
Bule-Bule a improvisar,
Roberto Mendes viola
A chula – samba de Angola,
Nosso samba de além-mar.

XI

Se eu fosse citar todos
Que merecem citação,
Faria um livro de nomes
Tão grande é a relação.
Desculpe, Afrânio Peixoto,
Esse doutor é um roto
Procurando promoção!

XII

Com vergonha do que fez:
Insultar toda a Nação,
O tal doutor Natalino
Pediu exoneração
E não encontra ninguém,
Nem um nazista do além,
Para tomar a lição.

XIII

O baiano é pirracento,
Mas paga com bem o mal:
Dá uma chance a Natalino
Lá no Mercado Central
De ganhar alguns trocados
Segurando o pau dobrado
Da corda do berimbau.






Sobre as prisões de capoeiristas na Bahia do século passado



“Do que eu sei, do que eu ouvi Bimba contar, negro que era capoeirista na rua era amarrado no rabo do cavalo e era levado até o quartel de modo que se dizia que era melhor brigar perto do quartel porque aí a distância que lhe amarravam no cavalo não era tão grande.”



Muniz Sodré, aluno do Mestre Bimba



A exclusão social e política adotada pelo estado de direito, levou a uma perseguição implacável ao “capoeira”. Dança, jogo, luta e expressão cultural dos negros escravos, a capoeira foi perseguida e considerada ato criminoso, além de associada a uma infinidade de preconceitos e discriminações. A cultura européia implantada no Brasil pelos portugueses discriminava os negros escravos e suas raízes. Rodas de samba, casas de Candomblé eram combatidas, invadidas e exterminadas; a capoeira também sempre foi discriminada e até perseguida pela polícia. Em 1890, a prática de capoeira foi proibida; quem a praticasse poderia ser punido com até seis meses de detenção; a interdição perdurou até 1937. Havia em Salvador, Rio de Janeiro e Recife, delegados especiais designados para acabar com a “vadiagem dos capodócios capoeiras.”

Hoje, a capoeira é esporte, cultura e fator de transformação social, de exercício crítico da cidadania e da conscientização pessoal questionadora e até modificadora das estruturas sociais. Enquanto instrumento de educação, a capoeira apresenta possibilidades de formação de crianças e jovens, principalmente no que se refere à integridade física, psicológica e social.

Você sabia?



A capoeira é a manifestação da cultura popular que mais se destaca referencial para compreender os vários aspectos da nossa história, principalmente os ligado à cultura negra. Ela “desperta o interesse pela cultura, incentiva a criatividade, desenvolve e aperfeiçoa as qualidades psicomotoras e proporciona benéficas mudanças comportamentais” (REGO, 1968)

Não há registro do termo Capoeira antes da cisão com Bimba. Mestre Bimba achava que a capoeira original, criada pelos escravos africanos, tinha se perdido no tempo, se transformara demais e se tornara uma dança, uma representação, do que propriamente uma luta

A criação do estilo Regional pelo Mestre Bimba (Manoel Machado) em 1928 é a principal referencia que desencadeou uma série de acontecimentos importantes, dentre eles a criação do estilo Angola pelo Mestre Pastinha. Mestre Bimba criou um novo estilo de capoeira, inspirado no batuque (uma luta extinta no recôncavo Baiano, muito difundida no século XIX) e com influencias de outras modalidades. Inicialmente denominou de Luta Regional Baiana e depois de Capoeira Regional. Foi aluno de capoeira do ex-escravo Bentinho na Estrada das Boiadas, hoje o bairro da Liberdade na cidade de Salvador.

O Mestre Pastinha foi convidado a participar do movimento mais declinou do convite, permanecendo a praticar a capoeira da forma que conheceu. Mais tarde, Pastinha introduziu modificações à capoeira que praticava para criar um diferencial da Regional, desta forma, surge a Capoeira de Angola.

Quer saber mais? Você poderá fazer um “passeio reflexivo pelas principais formas de expressão da cultura popular afro-brasileira” no livro A “Capoeira” da Indústria do Entretenimento: Corpo, Acrobacia e Espetáculo para “Turista Ver” de Acúrsio Pereira Esteves.

Aspectos Negativos



Hoje, a capoeira não é mais vista como uma atividade marginal. Está associada a aspectos positivos, entretanto, arrastados pela “onda” do capitalismo as academias de capoeira passaram a se estabelecer no exterior a partir da década de 70, vislumbrando a possibilidade de expandirem seus negócios num mercado que se configurava muito promissor. Em nossa sociedade, os valores e signos sociais perdem sua essência e aparência. A transmutação do original assume lugar de destaque teatralizando, caricaturando a vida real e legitimando o pseudo como se fosse original.

Nos Estados Unidos, cerca de 600.000 americanos jogam capoeira; na Califórnia, 400 escolas públicas de ensino fundamental oferecem a modalidade a seus alunos; na Universidade Stanford, capoeira é tema de aula optativa. A popularidade da capoeira é tanta que já existe a "capoeira workout"; criada pela brasileira Edna Lima, professora de educação física radicada nos Estados Unidos desde o fim dos anos 80, a nova modalidade dispensa a roda e, no centro dela, o confronto entre os praticantes. A aula de capoeira workout segue os princípios básicos de uma sessão tradicional de ginástica. O aquecimento se faz com coreografias ao som de samba-reggae. Em seguida, vem o alongamento.

A capoeira vem sendo usada também para treinar atores de filmes de ação. Foi assim que Wesley Snipes, protagonista de Blade – O Caçador de Vampiros, conheceu a prática e fez dela um de seus principais hobbies. Halle Berry recorreu à capoeira recentemente para interpretar o papel principal da Mulher-Gato. Para os americanos, a capoeira tem um atrativo forte, para além do fato de funcionar como arma de defesa pessoal e fazer bem à saúde. Ela é exótica, o que confere um certo charme a quem a pratica. (disponível em http://somaie.vilabol.uol.com.br/debates07.html)

No Brasil, a Lei Federal 10.639/03, obriga o ensino das disciplinas de História e Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas das redes pública e privada, entretanto, até que ponto a seriedade reveste a prática da capoeira nas escolas?



Quer saber mais?


Você poderá fazer um “passeio reflexivo pelas principais formas de expressão da cultura popular afro-brasileira” no livro A “Capoeira” da Industria do Entretenimento: Corpo, Acrobacia e Espetáculo para “Turista Ver” de Acúrsio Pereira Esteves.

Referências Bibliográficas

AREIAS, Almir das.
O que é Capoeira. Coleção Primeiros Passos. Ed. São paulo: Brasiliense, 1983.

http://www.ciapernasproar.hpg.ig.com.br/musica.html

http://www.itu.com.br/noticias/detalhe.asp?cod_conteudo=18606

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